Por que IAs não podem ler?
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Por que IAs não podem ler?

Vladimir Dietrich · October 13, 2026 ·4 min read

Outro dia quis pensar sobre o amor, confrontando alguns autores (Clarissa Pinkola Estes - conto A Mulher Esqueleto, Alain de Botton, Eckhart Tolle, Allan Watts, vários livros sobre ocitocina e dopamina. Paixão e “depois” da Paixão e outros temas).

É mais prático chamar a IA para conversar.

Parênteses: conversar com pessoas faz os dias parecerem bons dias. Mas as pessoas estão, frequentemente, ocupadas tentando pagar hipotecas que não por coincidência duram a vida ativa toda, assim na prática nunca têm tempo livre para pensarem sobre o amor - ou sobre qualquer outra coisa que não sejam metas da empresa para pagar hipotecas, um novo tipo de caça que nunca termina. Este parágrafo merece um texto maior, não é tão simples assim. Fecho o parênteses.

Fui surpreendido ao ser informado pela IA que ela não tinha acesso aos livros que citei.

Meu queixo foi ao chão.

Uma das principais vantagens de conversar com “cérebros enormes” é que estas IAs já leram tudo sobre todos os autores que eu citar, e todos os demais autores do mundo de todos os tempos.

Tudo bem que queremos comunhão, ocitocina, estar junto, viver em grupo, sermos confiáveis e confiarmos: estar conversando com pessoas, presencialmente, que leram nenhum a dez livros cada, apenas, mas entre abraços, risos e trocas de sentimentos é o que preenche dia após dia, ano e década após década, criando o tal florescer/eudaimonia que permite estar e, portanto, até morrer, em paz. É uma maneira de ver.

Mas já que as pessoas estão atingindo metas para produzirem mais plásticos coloridos, consultorias fundamentais, comidas e entretenimentos (90% águas e hormônios), estou eu conversando com IAs e seria muito, muito legal pelo menos que a IA tivesse acesso a todos os livros escritos a qualquer tempo. Além de textos na web, vídeos, tudo.

Mas não. O tão falado Opus 5.5 me pediu trechos dos livros que, como não dei - como eu poderia ter todos os trechos de cada livro a mão? - ele acabou tentando compensar pesquisando conteúdos públicos na internet.

Não me preocupo em saber se, clandestinamente ou não, cada IA foi treinada, sim, com todos os livros e conteúdos de todos os tempos. O problema é que agora, comigo, ela não quer/não pode usar estes conteúdos. Somente conteúdos gratuitos.

Isso já faz dois dias. Ia ser um texto interessante, ia até publicar em meu blog. A IA do Gemini nunca pediu livro nenhum mas, de acordo com a outra IA Opus, Gemini alucinou e inventou passagens como se, também, não tivesse acesso aos livros só que, ao invés de falar que não tinha acesso, inventava conteúdos “aproximadamente” certos. Como era uma conversa importante, “aproximadamente” certo, colocando coisas na boca de Alan Watts ou Alain de Botton que não estavam de fato em suas citações levaria a discussão para locais fantasiosos além da medida.

Pensei então: é a guerra dos livros. Quem escreve quer dinheiro. Justo?

Importa menos saber se é justo remunerar pessoas por seu esforço como, por exemplo, pagar por livros.

Não precisamos julgar. Sem veredito.

Basta saber que, no mundo atual, somos empurrados a ter que ler livros manualmente, e as IAs não podem “ler conosco” - e conversar, debater, aprimorar e incorporar conceitos.

Assim como existe software “open source”, gratuito, muito conteúdo é gratuito.

Acabaremos tendo que discutir coisas como o Amor, Economia, qualquer coisa, via conteúdos gratuitos.

Os livros pagos, infelizmente, vão perdendo o espaço nas discussões mais profundas que somente os grandes cérebros de IA conseguem desenvolver.

Porque não podem ser consultados na hora durante uma conversa sobre determinado assunto.

Existe uma chance de livros pagos perderem espaço no mercado se, agora, um conteúdo pode ser caracterizado como podendo ou não podendo ser discutido com ajuda de IAs.

Não poder ser discutido com IAs seria como “não estar no Google” era há poucos anos atrás. Pode perder o charme ler algo e não poder discutir com IAs.

Seria um novo mercado, o mercado de livros que podem, sim, ser discutidos com IAs?

Bastaria uma editora propor o seguinte: deixo você - IA - discutir qualquer trecho deste livro, basta proibir citar muitas páginas seguidas ou qualquer maneira de permitir que o humano leia o livro sem comprar, via IA. Com um contrato deste tipo, as editoras conseguem o melhor dos dois mundos: IAs autorizadas a serem parceiras de leitura, mas ainda obrigando o humano a comprar o livro, caso queira ler tudo, não podendo ler o livro via pedir página por página para a IA.

Taí ótima solução. O mundo muda.

Ou outra solução. Ou só eu enxergo esse problema?

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