Quero brincar
Nós, seres humanos, queremos brincar. Pergunte ao Peter Gray, especialista em “brincar livre” (aqui ou aqui). Peter Gray expõe um raciocínio interessante: o oposto de brincar não é trabalho, é algo relacionado à depressão.
Vou ter supor que “Peter Gray tem razão” para avançar. Se você não está convencido, seus dois vídeos acima convencem melhor que parágrafos meus - se você sair convencido. Portanto, assumo que nós, humanos, queremos brincar.
Partindo deste pressuposto, será muito fácil abandonarmos o trabalhar para as IAs e robôs. Não sentiremos saudades.
Vou agora partir destes dois pressupostos: nós, humanos, queremos brincar; as IAs e robôs trabalham.
Estes dois pressupostos permitem várias questões. Vou abordar primeiro uma: quem faz propaganda para quem.
Num mundo em que nós humanos brincamos e as IAs trabalham, as propagandas vão migrar de IA para IA, e explico. Vamos devagar, pois é um conceito um pouco novo.
A propaganda grosso modo serve para que produtos e serviços sejam vendidos e comprados, em razoáveis democracias, escolhidos e oferecidos - até hoje - por humanos.
Quando nós pudermos focar em brincar, vamos deixar as IAs cuidarem das “nossas” empresas, incluindo anunciar “nossos” produtos e serviços.
Da mesma maneira, vamos delegar às nossas IAs pessoais resolver problemas, o que inclui encontrar produtos e serviços de melhor custo-benefício, que se encaixem no nosso orçamento. Ou qualquer prompt que se diga para nossas IAs pessoais.
Ou seja: nossa IA irá decidir qual produto/serviço devemos escolher.
Então, a IA que oferece produto/serviço precisará, cada vez mais, anunciar, se oferecer, ser vista, para outras IAs - as IAs que decidem o que comprar.
Ou seja, empresas tentarão vender para IAs consumidoras. Não mais para humanos diretamente.
Qual a diferença para anunciar para uma IA? Como ser escolhido por IAs?
Certamente haverá diferenças entre anunciar para IAs, ou para humanos.
Hoje vejo preocupações sobre IAs “enganando” humanos. Yuval Harari coerentemente expões o perigo de IAs dominando emoções humanas e, então, facilmente manipulando as ações dos humanos com os quais ela interage.
Concordo com o mestre Yuval (como poderia discordar, seu raciocínio é sempre muito bem fundamentado, lúcido).
Discordo, porém, não que a IA manipule humanos facilmente - concordo sim -, mas proponho que IA passará a fazer propaganda para outras IAs e, então, humanos acabarão blindados, não sendo atingidos por manipulações de IAs. Pelo menos não na parte de o que consumir.
De IA para IA, emoção “não cola” - evidentemente.
Vou além: as telas (tv, redes sociais) - e as IAs são uma tela mais poderosa - não conseguem disparar muitas das emoções que humanos com humanos disparam. Aqui volto a Peter Gray: brincar é brincar com outros humanos. Ou lembro de Richard Cytowic: telas causam cansaço, Cytowic cita o “zoom fatigue”, a fadiga ao participar de videoconferências (ao invés de encontros presenciais). Ou volto, ainda, a Peter Gray novamente: brincar é brincar sem pressão. Se tiver scores, cobrança, nota, responsabilidade, como em times universitários, futebol profissional com altos salários em jogo e afins, já não é brincar - já é trabalho!
Olha que interessante: copa do mundo, aquele futebol profissional, é trabalho, não é brincar, na análise de Peter Gray. Isso é clarificador, quase revolucionário. É por isso que parecem “robôs” jogando, dá para “sentir” o dinheiro envolvido, parece mais dor do que diversão cada disputa. É um negócio. (Negação do ócio, aliás, na etimologia da palavra negócio): milhões em jogo, apostas, patrocinadores, ingressos, quem vai fazer o show do intervalo e quanto vai ganhar, quanto a reputação vai aumentar (etc). Negócio. Não é brincar.
O futebol do campinho ao lado de casa, sem troféu, sem score, sem cobrança é que é o brincar, tão mais perto, tão mais fácil do que “Copa do Mundo”. “Champions League”.
Ou esconde-esconde. Rir. Tomar chá. Correr. Brincar.
É por isso que acho que IA com IA dá namoro, e humano dá namoro com humano.
Será que pelo menos no longo prazo estou certo nesta hipótese?
Porque agora, através do mecanismo da dopamina, as máquinas estão dando um baile nos humanos. Todo mundo está grudado em uma tela que tem uma IA por trás: é uma IA que decide qual o próximo streaming ou post a oferecer. Vídeo ou Imagem. Essa tela deixa só um sofá virado para si. As salas com sofás em roda, preparados para conversas entre humanos, parecem antigos como eram as carruagens.
Realmente, novamente citando Cytowic, as telas entram no mesmo circuito de dopamina dos opióides e absorvem grandes quantidades, se não tudo, da capacidade de atenção de cada um até estar cansado e querer dormir.
Minha hipótese é que estas interações humano-IA não aguentam o longo prazo. Já sinto uma fadiga de bot, de robôs, de IA. Sempre que converso com alguém, o interesse é maior quando eu escrevo, e é bem menor quando eu colo uma resposta de IA - mesmo quando, e sempre, a resposta da IA é mais completa, e mesmo quando peço para simular um humano. Sinto que as pessoas querem atenção humana. Querem outra coisa que não a “eficiência” da IA. Querem o humano.
Querem brincar. No fundo.
Daí o título, a tese, deste texto.
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