Para João e Mariluz
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Para João e Mariluz

Vladimir Dietrich · February 24, 2026 ·6 min read
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No filme “A Man Called Otto”, em seu enterro ele pede um enterro simples, que importe àqueles que achem que Otto “pull my weight”, “puxou seu peso”, foi útil em sua vida. (O filme é Um Homem Chamado Otto. Em uma tradução ruim, recebeu o título de “O Pior Vizinho do Mundo” no Brasil).

Para mim em particular, um filme comovente.

Como andei pesquisando sobre as moléculas ocitocina e dopamina recentemente, sobre o prisma da ocitocina e da dopamina, eu diria que o filme comove com os momentos ocitocinérgicos, em um mundo muitas vezes mais dopaminérgico do que ocitocinérgico.

Vou ter que explicar este último parágrafo para depois poder caminhar para mais conclusões.

O filme tem lindos momentos “ocitocinérgicos”. Momentos que nos causam “Ohhh!”, ou “Awe”, no inglês.

A natureza é grande fonte de “Ohhh”, mas tem uma fonte ainda mais potente de “Ohhh”: a natureza humana. Mais especificamente, aqueles vídeos do youtube que mostram pessoas em atos “heróicos” (há infinitos, de todos os tipos: com mais ou menos ação, infinitos).

Otto comove com seus lindos atos heróicos. Aos 43 minutos, o primeiro jantar com Sonya. O amor entre Otto e Sonya é ocitocinérgico, principalmente após a fase inicial da paixão que costuma ser dopaminérgica.

O amor é ocitocinérgico.

Um pai cuidando de uma criança com uma paciência “ocitocinérgica” - pois poderia estar fazendo mil outras coisas: ganhar dinheiro, conhecer mulheres, beber, jogar, mas não. Alguém ajudando uma velhinha também pára tudo, por nada, exceto pela ocitocinergia do momento. (Etc).

Como Otto foi útil? Por quem, e como, ele “puxou seu peso” em sua vida?

Agora posso caminhar para uma análise a mais.

Otto foi útil às pessoas de maneira mais ocitocinérgica. A ocitocinergia acontece com mais facilidade pela proximidade. Conhecendo pelo nome as pessoas que você ajuda.

Seria mais “dopaminérgico” criar leis ou coisas que resolvam problemas de “todas as pessoas do mundo” (lindo também), mas a ocitocinergia costuma exigir resolver o probleminha do João, da Mariluz, do Abreu. (E mais: ajudar sem ser explorado, pois a ocitocina também detecta quando o Abreu não estava precisando de ajuda de verdade, estava só acomodado, mas isso é outro assunto. “The Moral Molecule" explica).

Dopamina: a molécula do desejo” argumenta que a ocitocina é a molécula da satisfação imediata, e que a dopamina nunca entrega a satisfação que, sempre, promete.

O filme “A Man Called Otto” permanentemente critica o mundo de hoje, em comparação ao mundo da época em que Otto era mais jovem.

Sob o prisma das moléculas, fico com a impressão que o filme vê relações dopaminérgicas avançando sobre as relações ocitocinérgicas, no mundo de hoje, enquanto haveria menos incentivo às relações dopaminérgicas e mais incentivos às relações ocitocinérgicas quando Otto era mais jovem.

Mas essa minha visão tem duas grandes falhas potenciais: em primeiro lugar, pode ser apenas um projeção de como eu enxergo o mundo, ou quero enxergar; e, em segundo lugar, pode ser também que apenas a velhice de Otto é que não se conforma com as coisas novas, mas para os jovens de cada época, estaria tudo bem e normal.

Então sobra apenas uma pequena fresta para esta minha tese poder se conectar com a realidade e ser uma boa tese.

Vou ter que assumir que a tese seja verdade a partir daqui. Mesmo sendo baixas as chances de estar correta. Por esporte, vamos assumir que minha tese esteja razoavelmente correta a partir daqui.

(Se minha tese estiver correta) Otto tinha relações ocitocinérgicas através de conexões bastante pessoais. Em seu trabalho, com seus vizinhos, o amor por Sonya, até com o gato.

Agora junto uma necessidade humana: em geral precisamos trabalhar para estar na sociedade, pelo menos em boa parte da vida adulta.

Enquanto trabalhar era abrir uma padaria em que os vizinhos do bairro te conheciam pelo nome, trabalhar era bastante ocitocinérgico.

Olhe ao redor de sua rua. Em seu bairro. Você pode conhecer os “Joões” e “Mariluzes” que te ajudam com o pão, os legumes, imprimir algo, tomar um café. Eles também podem te conhecer.

A não ser que seja um “Mc Donalds”, ou um “Walmart”, ou outra enorme rede. Neste caso, o máximo que você vai conhecer é o gerente, o funcionário, que pode ser do bairro ou não. Pode ser que o atendimento seja menos ocitocinérgico, tendo o funcionário que seguir protocolos ou havendo muita rotatividade se o emprego for desagradável.

Mas fica pior: se você viver em uma das megalópoles - Londres, Tóquio, São Paulo -, é possível que para viver no chão que parece “lava quente” (em alusão à brincadeira infantil “é lava”, em que ninguém pode pisar no chão) todos precisem trabalhar em “grandes causas” com enormes salários. Afinal, para morar perto das grandes torres de vidro é preciso ganhar muito bem e, como dinheiro é só uma medida de trabalho feito, é preciso “grandes trabalhos” para grandes dinheiros.

Estes “grandes trabalhos”, eis meu argumento, são mais dopaminérgicos e, portanto, menos ou quase nada ocitocinérgicos. “Dopamina: a molécula do desejo” mostra que a dopamina espanta a ocitocina, e vice-versa, por isso fica difícil ter ambas fluindo juntas, sempre.

Será que Otto estava certo, então, ao reclamar das pessoas ficando mais dopaminérgicas em sua velhice?

Por exemplo: no filme, ao invés de salvarem um senhor que cai em um trilho de trem, a grande maioria das pessoas filma o homem caído.

A Geração Ansiosa mostra que querer likes e ficar vidrado nas redes sociais é altamente dopaminérgico. Viciante. Quando as pessoas filmam o senhor caído, comentam “olha, um homem caído”, já antecipando quantas visualizações receberão no futuro, ao exibir a filmagem em suas redes sociais. Estavam no modo dopaminérgico, guiados pela dopamina. Em oposição ao ato extremamente ocitocinérgico de salvar um senhor nos trilhos, antes do trem chegar.

Agora vamos às conclusões mais práticas, que adoro ter, apesar da grande abstração que as precede.

O mundo pode estar, mesmo, nos empurrando para relações mais dopaminérgicas.

Se isso for verdade, as relações mais ocitocinérgicas serão simultaneamente afastadas, pois dopamina e ocitocina são moléculas mais opostas do que amigas.

Assim, ao invés de treinarmos nossas crianças para ajudar nosso bairro - nossa tribo -, como por exemplo com o comércio local ou não muito distante, poderemos ser empurrados a treinar nossas crianças para abstrações complexas, que podem salvar o mundo, com trabalhos grandiosos, na área de finanças, física, química, salvando menos os Joões e as Mariluzes que (ainda) conhecemos pelo nome, e mais “todos os humanos”, “um país inteiro”.

Bem a cara da dopamina. Bem aquilo que espanta a ocitocina.

Este é uma das minhas primeiras postagens sobre ocitocina, dopamina e o mercado de trabalho, a nossa vida.

Eu sei que tenho algumas coisas importantes a mais para concluir. Maspreciso escrever por partes. E dormir. Assentar as ideias. Sentir.

Obrigado “João e Mariluz” pela paciência em ainda ler textos que não são de rolar para baixo em um pequeno instante, com apenas um dedo.

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