Valor
Onde está o valor?
Criamos o dinheiro para permitir mil trocas, mas veja parágrafos como estes:
“A decisão beneficia o Controlador da Instituição Financeira A ao conceder de ofício — ou seja, sem provocação formal das partes — um direito de preferência sobre debêntures bilionárias do Conglomerado em Falência X ao Fundo de Investimento Multimercado Y.
As debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos no mercado de capitais. No cenário em questão, esses ativos, de titularidade de uma das mineradoras do grupo falido, foram leiloados em 2022 com o objetivo de liquidar passivos junto aos credores.
O Grupo de Investimento Z sagrou-se vencedor do certame com um lance de R$612 milhões, tendo recebido a posse formal dos títulos. Contudo, houve uma reforma monocrática da decisão anterior, resultando na anulação do leilão em favor do Fundo Y, que originalmente não figurava como parte interessada direta na ação em curso”
E esse?
“O esquema baseava-se na utilização de veículos de investimento do Grupo Econômico A, geridos por uma Corretora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM X), posteriormente renomeada para Gestora Y.
Sob a gestão do Executivo Principal, a DTVM X administrava fundos de investimento — categorizados como Multimercado (FIM) e Imobiliário (FII) — que serviam como instrumentos de capitalização fictícia para a Instituição Bancária Z. A operação consistia em simular aportes de capital com recursos do próprio banco e inflar artificialmente o valuation de ativos imobiliários em carteira.
Atualmente, o Executivo Principal mantém vínculos com a Gestora Y, que foi alvo de investigações por suspeita de integrar um esquema de repasse de recursos para negócios ligados a conglomerados familiares. Observou-se, inclusive, a abertura de uma estrutura offshore em jurisdição de baixa tributação poucos dias após intervenções regulatórias do Banco Central na Instituição Bancária Z.
Na estrutura operacional, a DTVM X atuava como administradora de fundos vinculados ao Grupo Econômico A. Documentos regulatórios apontam que um Investidor Estrangeiro P figurava como um dos principais cotistas desses fundos. Foi através desses veículos que o Investidor P aportou recursos na aquisição do controle da Instituição Bancária Z.”
Chega de parágrafos sobre dinheiro.
Somente uma inteligência artificial consegue dar conta de complexidades financeiras como estas sem se perder.
Nós, humanos, estamos mais preparados para saber quem faz o pão quentinho pela manhã no bairro. Sabemos a cara da vó fofinha que costura e que queremos mais pedir/dar uma bênção para ela, do que efetivamente consertar o botão da camisa.
O mundo tem deixado uma avenida aberta para valores do tipo “extravagância complexa financeira”.
Após ler Local is Our Future aprendi um pouco sobre o valor dos produtos locais. Aqueles que você enxerga o dono.
Quando enxergamos o dono, ativamos uma camada de compaixão que é mais difícil de enxergar em grandes redes.
Helena, a autora de Local is Our Future, crítica navios indo e vindo trazendo produtos que podemos encontrar perto. Eu adiciono que essas manipulações financeiras também são super distantes da nossa realidade local.
Daí o título deste artigo: valor.
O que tem valor?
Quando o dinheiro basta (sabemos que não, mas vamos lá supor), pessoas em jatos de 500 milhões fazendo transferências de dinheiro para quem quiser são bem aceitas.
São bem aceitas emocionalmente ou financeiramente?
Me lembro daqueles desenhos animados que colocam dois corações nos olhos, por exemplo do pica-pau, quando ele se apaixona por algo ou alguém.
Quantos de nós ganhamos corações nos olhos quando nos fazem transferências de dinheiro generosas uma vez ou repetidamente?
Misturar sentimento de paixão/amor com finanças puras, sem precisar saber a origem do dinheiro (afinal o cliente sempre tem razão e não importa quem seja) é estimulado pela cultura do mercado. Temos que atender a todos bem; o cliente sempre tem razão.
E assim pessoas que conhecemos apenas pelas transferências de dinheiro generosas se aproximam de nós.
E se o valor estiver no sentimento?
Opa, agora a coisa muda.
Se um dia alguém começar a usar o sentimento como moeda importante, é bastante provável que pessoas que tentem se aproximar com transferências de dinheiro generosas não consigam calor no coração
Ou pelo menos não consigam esse calor através da transferência de dinheiro generosa. Se a pessoa se aproximar com gentileza e alegria pode conseguir calor, mas então para quê tanto esforço financeiro se havia jeito mais simples de conseguir valor/calor.
Quando valor é calor no coração, muita coisa muda e pode mudar no mundo.
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