Pinóquio
“Eles me amam! Eles me aceitam!” - exclama o Pinóquio de Benício del Toro no Netflix.
Pinóquio se afasta de seu pai, Gepeto, repetidas vezes, até seu felizes para a sempre final.
Clarissa Pinkola Estés fala brevemente sobre Pinóquio num raro artigo. Pinóquio representa a busca do amor pelo homem com suas ferramentas, mas ela explica melhor.
Mas o Pinóquio de Benício de Toro no Netflix vem recheados daquelas dicas emocionais que aparentemente os roteirista, cineastas, artistas parecem dominar.
Pinóquio busca por aceitação no palco - “eles me aceitam” - logo após Gepeto ainda comparar Pinóquio com Carlo, seu filho de carne e osso perdido para a guerra.
“Eu vou ser como Carlo!” - exclama bravamente, empolgado, Pinóquio, quando vê está chance de receber amor do pai.
Mas se para ser amado é preciso ser outra pessoa - quem sabe o melhor nadador, o incansável estudante, o mais aquilo, ou nunca suficiente isso -, Pinóquio sem demora cede para o empresário que quer entregar fama para Pinóquio, sendo seu empresário. Pinóquio pode ser amado pelo que ele é.
Mas não dentro de casa, por seu pai. E/ou por sua mãe. Ou uma tia. Alguém próximo.
Não: o circo! Hollywood! Olimpíadas! Visualizações.
A semelhança com a realidade é o objetivo do cinema.
Para ajudar a aparentemente justa relação entre empresário, que corre o risco, e o artista empresariado, que quer ser aceito (pelo que ele “é”: uma marionete?), o empresário ainda oferece pipoca, chocolate quente, sorvete infinitos.
O mesmo chocolate quente que o empresário e circo oferece em infinitas quantidades a Pinóquio é a xícara de chocolate quente que Gepeto NÃO oferece a Pinóquio em uma de suas primeiras demonstrações de inabilidade de amar seu filho.
Não é coincidência o chocolate quente aparecer lá e cá. Como acabo de escrever em O Melhor Café, o “chocolate quente” NÃO é um líquido adocicado morno descendo pela garganta. Nada disso. É amor puro.
Quando Pinóquio está no circo, não aguenta mais pipoca, sorvete nem chocolate quente. Ele não aguenta mais “o líquido cremoso adocicado quente”, porque não era pipoca, sorvete e chocolate quente que ele realmente queria, era amor puro.
E a cortina de abre e ele recebe, então, aplausos.
E agora? Agora ele é aceito pelo que ele é - um artista? -, então é amado?
O empresário, antes de abrir as cortinas, dá mais um dica emocional: “aqueles idiotas assistindo”.
E agora? Hollywood (ou melhor, Netflix) acertou ou errou?
Esses roteiristas são fenomenais. Será que atuam com a intuição ou são super-psicólogos? Ou isso faz parte da antiga estória que também se baseia em nossa rica cultura de antigas estórias, conforme nos ensina Clarissa Pinkola Estés?
Quais sejam as fontes da sabedoria, será que a plateia “é idiota”?
Sabemos que Pinóquio não recebe o amor que quer enquanto não o recebe de Gepeto seu pai, após longos erros seguidos de melhorias.
O amor da plateia não bastou para Pinóquio.
Por quê?
Por que eu deveria parar parágrafos com este porquê?
Por que a fama dos likes pode trazer o empresário do Pinóquio ao alcance de cada um de nós.
Somos amados? Por plateias idiotas? Ou por nosso pai? (Como falo de Pinóquio, estou pulando a mãe, mas Amor vale em qualquer caso).
Voltemos, então, para saber se as plateias são idiotas e se o amor delas é baixo ou inexistente.
Aqui entra a importante questão daqueles pequerruchos jogadores de futebol que são empurrados para a fama - jogar nas telas de tv - com cada vez menos diversão e mais “será que vou ser cortado?” por um treinador/empresário que também é cobrado por vitórias e boas escolhas. Inicialmente é oferecido diversao. “Chocolate quente”. Jogar sem grandes cobranças. Até que - para alguns bem cedo, para outros logo após - você vira uma máquina que não pode errar. Vá a um jogo Sub-20 ou sib 17 e você verá a diversão praticamente desaparecida ou desaparecida do campo. São robôs de carne e osso observador por um treinador preocupado com seu emprego. As plateias são idiotas? Essa é a pergunta que Pinóquio responde “sim!”.
A família de pouca renda que “precisa”, “precisa”, “precisa” que o filhinho vore milionário pode, agora, ser substituída pela família de alta renda cujo filho “precisa”, “precisa”, “precisa” manter o nível, a performance, a dedicação incansável do pai. (Por tratar-se de Pinóquio, foco no pai). Cá voltamos: no início (um pouco de) diversão, seguida de muitos, muitos, muitos estudos e, finalmente, ser o CEO dos CEOs. Um atleta! Uma marionete? Em busca de amor? Amor de plateias idiotas?
Será que Hollywood/Netflix acertam em cheio ou são palpiteiros malucos?
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