O que aconteceu com quem estudou numa escola sem aulas, sem provas e sem notas
Este artigo não é meu: é um resumo, em português, de um estudo de Peter Gray e David Chanoff. A pesquisa é deles — publicada no American Journal of Education em 1986, sobre o que foi feito dos egressos da Sudbury Valley School. Meu trabalho aqui foi ler o artigo original, resumir os achados e traduzir as falas citadas, porque não havia nada disso em português. Tudo o que vem a seguir é conclusão dos autores, salvo a última seção, em que digo por que fui atrás disso.
A Sudbury Valley School abriu em 1968 em Framingham, Massachusetts. Não tem currículo, aulas obrigatórias, provas, notas nem boletins. As crianças decidem o que fazer o dia inteiro, dos 4 aos 19 anos, e a escola é governada por uma assembleia em que cada aluno e cada funcionário tem exatamente um voto.
A pergunta que todo pai faz diante disso é sempre a mesma: e depois? Peter Gray, professor de psicologia do Boston College, e David Chanoff foram atrás da resposta: procuraram, um a um, os formandos dos onze primeiros anos da escola. É o estudo mais citado sobre o assunto, e o que segue é o que eles encontraram.
Como o estudo foi feito
Entre junho de 1970 e junho de 1981, 82 pessoas saíram da escola como formandas — 78 com diploma e 4 que saíram aos 16 anos ou mais sem apresentar a tese de conclusão. Os pesquisadores localizaram 76 delas e obtiveram resposta de 69: 91% das localizadas, 84% do total. Foram 47 questionários escritos, 15 entrevistas por telefone e 15 entrevistas pessoais.
Os formandos foram separados em dois grupos: os que entraram na escola até a 6ª série (grupo 1, os que passaram mais tempo lá) e os que entraram da 7ª em diante (grupo 2).
Quanto tempo eles passavam estudando “matéria”
Pouco, e não é figura de linguagem: 29% do grupo 1 e 56% do grupo 2 declararam não ter feito nenhum curso ou tutoria na escola. Quando pedidos a estimar quanto do tempo dedicavam a atividades reconhecivelmente acadêmicas, a média das respostas foi de 8%.
Os resultados
Pouco mais de 50% foram para a faculdade
Tinham concluído ou estavam cursando uma graduação no momento da pesquisa — 64% do grupo 1 e 47% do grupo 2. Outros 25% tinham feito algum estudo superior sem estar matriculados num curso de graduação.
86% e 54% entraram em faculdades seletivas
Essa é a proporção das matrículas do grupo 1 (6 de 7) e do grupo 2 (13 de 24) que se deram em uma das aproximadamente 220 instituições mais seletivas dos Estados Unidos, segundo o guia Fiske de 1982.
E sem nenhum histórico escolar com notas
Cerca de metade entrou primeiro numa faculdade menos seletiva e transferiu depois, usando o desempenho de lá como credencial. Os demais entraram direto, com SAT, cartas de recomendação e, em alguns casos, entrevistas ou provas aplicadas pela própria faculdade. Entre os que já tinham bacharelado, seis estavam na pós-graduação ou já titulados — dois deles doutorandos, em física teórica e em antropologia.
Nenhum se arrependeu
À pergunta final — “no conjunto, você está contente de ter estudado na SVS em vez de numa escola mais tradicional?” —, 56 responderam “sim, muito”, 11 responderam “sim, moderadamente”, 2 deixaram em branco e nenhum respondeu que teria sido melhor não ter estudado lá.
E os prejuízos? O estudo também os registra
Esta é a parte que costuma ser omitida por quem divulga a escola, e é justamente a que dá credibilidade ao resto. Dos 35 formandos do subgrupo universitário, 13 disseram que a escola os prejudicou de alguma forma: oito relataram chegar fracos em alguma área acadêmica — matemática foi a mais citada; três se sentiram prejudicados por não ter histórico escolar na hora de se candidatar; e dois disseram ter se sentido intimidados no começo, por acharem a faculdade muito diferente da escola. Uma delas adiou a entrada por alguns anos por causa disso.
Os mesmos 13, sem exceção, também responderam que a escola os beneficiou — e a maioria deixou claro que o benefício superava o prejuízo. No total, 32 dos 35 disseram que a escola os beneficiou para os estudos posteriores. As duas razões mais citadas, cada uma por cerca de metade deles: mais vontade de continuar aprendendo, e o hábito de ser responsável pela própria educação.
Em que trabalhavam
Entre os 69, as carreiras se espalhavam por artes (15), saúde e profissões de cuidado (13), gestão e negócios (8), trabalho administrativo e vendas (6), carreira acadêmica (5), ciência aplicada e tecnologia (5), ofícios de habilidade específica (9) e diversos (8).
Metade dos formandos do grupo 1 — os que passaram mais anos na escola — seguia carreira nas artes: uma bailarina de companhia internacional, um fotógrafo de paisagem que se sustentava com retratos de estúdio, um aprendiz de ceramista, um músico de rock, um pianista e arranjador formado por um conservatório de prestígio.
O que eles próprios disseram
“Sou grato à escola pela educação que ela me deu sobre pessoas, vida e convivência. Sou muito mais tolerante com quem é diferente de mim. Lá, cada um é um indivíduo. Na escola pública, ser diferente em qualquer aspecto é algo a evitar a todo custo.”
“A discussão da filosofia democrática, em especial os debates sobre a responsabilidade de cada um, me marcou profundamente. Continuo me esforçando muito para saber quais são minhas responsabilidades e para cumpri-las. E isso, claro, ajudou em todas as áreas da minha vida.”
“Estou contente de ter ido e de ter convivido com aquelas pessoas, porque aquilo me transformou de uma criança rebelde numa pessoa no controle da própria vida. Adquiri confiança para fazer o que eu quiser.”
O que este estudo não prova
O artigo é honesto sobre os próprios limites, e quem o cita deveria ser também. A amostra é pequena e de uma escola só. Os dados são autorrelatados. Os pesquisadores tinham vínculo com a escola e reconhecem no texto o risco de isso influenciar as respostas. E, principalmente, a população não é aleatória: 83% dos respondentes tinham ao menos um dos pais com diploma universitário. Uma família que escolhe uma escola assim já é uma família incomum.
O que o estudo permite afirmar é mais modesto — e ainda assim notável: crescer sem currículo, sem provas e sem notas não impediu estas pessoas de entrar na universidade, de exercer profissões variadas nem de estar em paz com a própria formação. A pergunta “e depois?” tem, ao menos, uma resposta documentada.
Original e leitura completa
Gray, P. & Chanoff, D. (1986). Democratic schooling: what happens to young people who have charge of their own education? American Journal of Education, 94(2), 182–213. doi.org/10.1086/443842
O artigo completo, em inglês, está disponibilizado pelo próprio autor em PDF, e tem ficha na Alliance for Self-Directed Education.
Quem escreveu o quê: a pesquisa, os números e as conclusões são de Peter Gray e David Chanoff. Este texto é um resumo autoral em português, escrito por mim a partir do artigo original — não é tradução dele, cujos direitos são dos autores e da University of Chicago Press. Os trechos entre aspas são falas dos egressos citadas no artigo, em tradução livre minha. Se você lê em inglês, leia o original: ele é melhor que qualquer resumo.
Por que eu resumi isto
Estou tentando reunir um grupo para abrir uma escola assim em Porto Alegre, e comecei pelo passo mais simples: um encontro semanal, no mesmo lugar e na mesma hora, para as crianças brincarem livres, sem atividade organizada. Se isso lhe interessa — como pai, como educador ou por curiosidade —, escreva para vladimir.brasil@gmail.com.
Sobre a escola original: sudburyvalley.org. O livro que conta o dia a dia dela é Free at Last, de Daniel Greenberg — ainda sem edição em português, e é isso que estamos tentando mudar.
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